ARTIGOS ::

História do Caminho das Orquídeas

Por Por Salomyth Fernandes

 

Em 1938, Almy Ulysséa, Günter Buchheiter, Giuseppe Toselli, Raul Fioratti - todos do Clube Excursionista Brasileiro (CEB) - começaram a exploração da Agulha do Diabo, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, pelos Vales Santo Antônio e São João. Após muitas explorações na região, estudaram as possibilidades de aproximação. Chegaram finalmente à conclusão de que o caminho viável seria pelo "colo" entre São João e o Mirante do Inferno, para alcançar a base do Penhasco Fantasma (Agulha do Diabo). Em 29 de junho de 1941, ocorreu a conquista: Giuseppe Tosselli, Almy Ulysséa e Roberto de Menezes conseguiram a vitória.

Este caminho de acesso tornou-se oficial por 17 anos. Para ter acesso à Agulha do Diabo era obrigado acampar no Vale São João. Na época, o material era precário, tudo refugo do Exército: botinas de soldado cardadas, barracas, mochilas, bornais, lanterna de carbureto, fogareiro a álcool, cantil, enfim, tudo era pesado, impróprio para montanha. A barraca, por exemplo, era constituída de dois panos de lona abotoados na cumeeira e pelos lados frente e traseiro. O pano do chão era improvisado, com um lençol em forma de saco cheio de folhas e capim. A barraca dava para dormir três montanhistas "apertados". Mastros e espeques eram improvisados com arbustos. Material de Escalada: duas cordas de sisal de 12 mm com 30 metros cada, 5 mosquetões de aço (feitos no Corpo de Bombeiros); cordas de sisal, "solteiras" de 9 mm para cada participante, alpargatas feitas de fibras de sisal. Tudo era penoso, principalmente quando chovia, dobrava de peso; frustrados, tínhamos que voltar para casa.

Daí resolvemos - eu (Salomyth) e Minchetti - partir para uma alternativa: utilizar o Abrigo 4 para o acesso à Agulha.

2ª Via para Agulha - 10/10/1958

Em 1958, após quase duas décadas de tantas frustrações, eu (Salomyth), Minchetti e Henry Ochioni, resolvemos achar uma 2ª via para o acesso à Agulha do Diabo. Subimos e descemos São Pedro em direção ao Mirante colocando dois grampos no paredão de São Pedro para facilitar a descida e a subida pela nova via, que demos o nome de "Paredão Mirante". Após passarmos o Mirante do Inferno, subimos o São João, colocando 1 grampo, que demos o nome de "Paredão Carioca" (C.E.C.), para melhor estudarmos o Vale São João. Assim estava inaugurada a 2ª via de acesso à Agulha, pelo "colo" (entre o Mirante do Inferno e São João).

Estávamos todos contentes com a nova via; além de não ter de carregar barracas e apetrechos, tínhamos o Abrigo 4 por perto; porque, se chovesse, não ficaríamos frustrados, pois tínhamos 2 montanhas por perto: Pedra do Sino e São Pedro. Assim, poderíamos aproveitar o dia e não ficaríamos frustrados.

Em julho de 1964, estávamos eu e meu companheiro Emídeo (falecido) indo em direção ao Abrigo 4 para irmos à Agulha e dormirmos neste abrigo, quando o vimos totalmente destruído. Foi um verdadeiro choque! Tivemos que bivacar. Tudo isto deveu-se ao regime militar instalado no Brasil em abril de 1964. O capacho do Diretor do P.N.S.O. - Eliovaldo Chagas de Oliveira (inimigo nº 1 dos montanhistas) lançou a pecha de "depredadores do parque". Ora! Os montanhistas, mais que ninguém, têm o máximo de interesse em conservar o inestimável patrimônio público. "Quanto mais escondermos o parque, melhor..." Com estas palavras, o administrador do P.N.S.O. encerrou as suas declarações a um matutino desta cidade (O Globo de 25/09/67)

Em 4 de setembro de 1965, ainda restava de pé o Abrigo 3. Este abrigo ficava inviável devido à distância para a Agulha.

3ª Via - 04/09/65

1ª Investida - eu (Salomyth), Minchetti e Thiers, lançamos a exploração. Descemos o São Pedro pela via do Mirante, na base de São Pedro contornamos em direção ao Abrigo 3. Encontramos um forte Taquaral. Atravessamos o riacho Paquequer, mais adiante, numa parte plana, abrimos uma clareira que demos o nome de Acampamento Paquequer.

2ª Investida - 05/09/65

Partimos do Abrigo 3 (cota 2.000), levando todo o material, inclusive machadão e foice em direção ao Riacho Paquequer (acampamento). Atravessamos o Riacho Açu e, procurando sempre que possível, em curvas de nível, abrindo e contornando o Morro queimado. De repente, no ardor da luta desenfreada contra um forte taquaral trançado infernal, com foice e facões durante 3 horas, deparamos com uma pequena clareira com árvores copadas: perto, uma pedra de bom tamanho - coberta de musgo (batizamos com nome de "Pedra do Tapete"), na qual pendia uma imensidão de orquídeas em flor.

Paramos, sentamos para reverenciar, em silêncio, aquela inigualável maravilha. Tanta beleza que nos fez sentir uns invasores miseráveis daquele santuário dos deuses; beija-flores que saltitavam, zuniam com suas asas vibrantes, no afã de se alimentarem do néctar das flores. Bem que a natureza lutou contra nós, para proteger e preservar o Santuário com aquele maranhado taquaral que, a muito custo foi vencido. Mais tarde, infelizmente, destruída esta maravilha pelos vândalos - "caçadores de orquídeas" , quando souberam pelo noticiário. A princípio pensamos em batizar com o nome de Marechal Rondon (o último bandeirante que desbravou o oeste do Brasil, local denominado Guaporé - mais tarde, em 1958, passou-se a denominar-se Estado da Rondônia). Mas, devido ao fato acima citado, achamos mais poético e lindo o nome "Caminho das Orquídeas". Após mais 2 horas de luta conseguimos finalizar chegando no "Acampamento Paquequer" (Rio consagrado pelo romancista José de Alencar com o livro "O Guarani". Em 05/09/65, vitória! Congratulações! Cansados, mas felizes. Acampamos. Em 06/09/65, resolvemos fazer desta via um verdadeiro caminho.

06/09/65 - Grande Limpeza

Transformamos a picada em caminho. Muito trabalho mesmo. Cortamos troncos caídos a golpes de machado. Cortamos com foice e facões mais taquaras sobre a trilha. Assim concluímos a limpeza para sempre : o "Caminho das Orquídeas". Nesta limpeza, surpresa! Ganhamos uma bela chaminé na Face leste de São Pedro; colocamos 2 grampos e batizamos de Chaminé Cassim (em homenagem ao grande alpinista italiano Riccardo Cassim).

Em 10/09/65, voltamos para concluir a conquista da Chaminé Cassin. Surpresa! Abrigo 3 também destruído pelo nefasto Administrador Eliovaldo. Na Chaminé Cassin, colocamos mais 15 grampos, perfazendo o total de 17 grampos. Assim concluímos a conquista. Vitória! Saudamos a Chaminé - Salomyth, Minchetti e Thiers. Tivemos que bivacar novamente no Acampamento Paquequer.

O caminho das Orquídeas tornou-se o mais viável pelos montanhistas para escalar a Agulha do Diabo, São João e São Pedro (via Chaminé Cassin ou via Mirante). Pode-se fazer o circuito completo: cota 2000, caminho das Orquídeas, Chaminé Cassin ou Via Mirante, São Pedro, Baleia, pedra do Sino, cota 2000. Pode-se aumentar o percurso, indo à Pedra da Cruz, Caminho da Neblina, Queixo do Frade, descendo pelo caminho normal para o P.N.S.O.

Enfim, sinto-me feliz por ter aberto a 3ª via - caminho das Orquídeas - eu e meus companheiros Minchetti e Thiers, facilitando o acesso a todos os montanhistas à Agulha do Diabo - "A montanha do meu coração". Nesta montanha tive todas emoções, aventuras, sofrimentos e alegrias, das 37 vezes (cume) que escalei e as noites i-nes-que-cí-veis que passei no seu platô. Guardarei este sonho realizado bem no fundo do meu ser para sempre.

P.S. em 05/09/2005, o Caminho das Orquídeas fez 40 anos. Se eu puder até lá percorrer, ficarei ainda mais feliz ao contemplar do Mirante a minha, a nossa, Agulha do Diabo.

 

VOLTAR