ONDE ESTIVEMOS ::
2015-06-04 | Salinas de bicicleta

Por: Guilherme Silva

O Pico Maior dos Três Picos é o ponto culminante da Serra do Mar, com 2.366 metros. Do Rio até lá são entre 160 e 180 quilômetros, mais ou menos, dependendo de onde se sai.

Em 2014 veio a vontade de sair do nível do mar e ir ao cume da Serra do Mar sem usar nenhum motor. A ideia era sair de Ipanema de bicicleta até a região e chegar no cume do Pico Maior pela via de escalada "Leste"(http://www.carioca.org.br/croqui/croqui-femerj.psp?0359).

Em vias de escalada tradicional fora da cidade do Rio prefiro um grupo de quatro pessoas em duas cordadas, por questões de segurança em caso de acidentes. No caso da Leste, uma via de 700 metros, o grupo ideal seria de escaladores com boa experiência nos procedimentos, sólidos no quinto grau e que já tivessem escalado na região. Para este projeto específico, acrescente a paixão por bicicletas e o bom condicionamento físico, técnico e mental.

Inicialmente chamei alguns amigos para compor o grupo e anunciei para outros. Uns curtiram, outros quiseram participar apenas da pedalada, uns toparam na hora, uns mudaram de opinião, uns alertaram sobre o excessivo nível de esforço.

Para o planejamento, foi necessário definir uma data-alvo. A pedalada seria de um ou dois dias, dependendo da capacidade do grupo. Se a pedalada fosse de um dia, consideramos um dia de descanso após a pedalada, um dia para a escalada e um dia para voltar ao Rio. Definitivamente, não é uma atividade para um fim de semana comum. Calendário na mão, ficou definido que a empreitada iniciaria no feriado de 4 de junho e iria até o domingo 7 de junho. Essa data foi definida meses antes, em função da disponibilidade de tempo livre, e considerando que junho é um mês tipicamente favorável em termos de condições climáticas.

Para a pedalada, uma das dificuldades é sair da cidade. Na Linha Vermelha e na Ponte não se permite bicicletas no dia-a-dia. A saída seria pela Avenida Brasil. Conversei com vários ciclistas e conclui que o ideal seria passar por ali de madrugada. Em abril testei isso com o Fernando Araujo, pedalando até Teresópolis, e deu certo.

No dia 04 de junho de 2015 o despertador estava disparando as 3 da manhã e eu já estava acordado. Saí de Ipanema as 3:10 e fui até a praia fazer uma foto. Às 3:40 encontrei o Sergio Bula em frente ao Palácio Guanabara, na Pinheiro Machado, atravessamos o túnel Santa Bárbara e às 4 horas encontramos o Fernando Araújo no Posto Bracarense, na Praça da Bandeira. Dali pedalamos em direção à Rua São Francisco Xavier, fomos por Triagem e entramos na Av. Brasil na altura do número 2500. Tivemos um pneu furado, que foi rapidamente trocado. Avisamos ao Hans Rauschmayer que isso nos atrasaria e ele, que nos encontraria na Washington Luiz, acabou nos vendo no posto onde estávamos recalibrando os pneus. Retomamos o ritmo e encontramos o Hans em um posto de Gasolina após a Reduc, por volta das seis da manhã, quando ele finalmente se juntou ao grupo e onde fizemos uma breve parada de descanso.

Fomos em grupo até a Casa dos Queijos, em Guapimirim, em um ritmo moderado. Já havia pedalado 90 km. Ali paramos para descanso, hidratação e lanche por uns quarenta minutos.

A Serra mudou bastante o ritmo da pedalada. Nosso ritmo estava em uma média de 22 km/h e caiu para 7,5 km/h ao longo dos 14 km de subida. Além da subida, o sol já estava bem presente. Paramos no Garrafão e no Soberbo, onde o caldo de cana foi a preferencia da maioria.

Os 12 quilômetros seguintes foram principalmente de descida, até a entrada da estrada Terê-Friburgo, onde encaramos novamente as subidas. Paramos no km 17 em Venda Nova para mais um descanso e lanche.

Subidas e descidas, eventuais "retinhas" e paramos mais uma vez em Vieira, no km 35, para tomar coragem para os 5 quilômetros seguintes de subida, onde os municípios de Teresópolis e Nova Friburgo fazem divisa. Até ali já havíamos pedalado aproximadamente 155 quilômetros.

Finalmente saímos da Terê-Friburgo e entramos em direção aos 3 Picos. Paramos no mercado para comprar alguns alimentos e fomos até o abrigo do Alexandre Portela, onde chegamos as 18:40h, para banho, pizzas, boa conversa e finalmente um descanso merecido.

Nossas paradas duraram entre 20 e 40 minutos cada, e a alimentação foi fundamentada em açucares, carboidratos e isotônicos. Usamos gatorades, guaravitons, sucos de laranja, caldos de cana, pães com e sem recheios doces ou salgados, alguns carbogéis, amendoins e eventualmente café.

O dia seguinte foi de muitas refeições consistentes. Acordamos sem relógio, fizemos um farto café da manhã, regulamos as bicicletas, descansamos. O almoço foi cedo e baseado em macarrão. A tarde separamos os equipamentos de escalada (que estavam guardados no abrigo) e fizemos a caminhada até o abrigo do Mascarin, com as mochilas de escalada e sacos de dormir para a noite. Jantamos a deliciosa comida do Mascarin e ficamos conversando com quem ali estava hospedado e com quem aparecia para uma visita. Nisso conseguimos carona para a volta dos equipamentos. Va Machado e Groba gentilmente ofereceram essa ajuda.

No sábado acordamos cedo, comemos e iniciamos a caminhada de 50 minutos até a base da Leste, onde chegamos as seis horas. Na trilha, víamos as gotas de água de orvalho/chuva refletindo as luzes das lanternas. Nuvens batiam constantemente na rocha, levemente molhada.

Sergio Bula começou a escalar e escorregou logo nas primeiras passadas. Decidimos aguardar e ver se o tempo mudaria. Ficamos na base até as 8:30 e a parede continuava molhada, sempre com alguma parte coberta de nuvens. Conversamos muito a respeito e desistimos de tentar o cume. O risco de chegar muito tarde e com névoa no cume era real e nessas condições encontrar o início do rappel poderia se tornar algo bem difícil para nós.

Finalmente o tempo firmou e entramos na via às 8:45h, com uma estratégia diferente da original, pois não mais faríamos o cume. Fomos despreocupados com velocidade, em estilo tradicional, alternando as guiadas em todas as paradas definidas no croqui até a P7. Aproveitamos para reconhecer a linha de rappel da própria via, usando os grampos exclusivos para este fim.

Às 15h estávamos de volta no Mascarin e às 17 estávamos no Portela para mais uma refeição rica em carbohidratos.
Fomos na Abertura de Temporada de Salinas no Pouso dos Paula, onde encontramos vários amigos, assistimos alguns filmes, bebemos algumas cervejas e curtimos um entorno de fogueira.

No domingo, após o café da manhã, levamos as cargueiras até o abrigo do Tartari, para que a Vanessa e o Groba as levassem para o Rio, e fizemos mais um tempo de bate-papo com os amigos que ali estavam.. Em seguida começamos a pedalar em direção a Nova Friburgo. Fomos pelo vilarejo Salinas e usamos uma estrada com um bom trecho em terra. Não sabíamos, mas nesse dia havia uma atividade de motocross nessa estrada. Eram centenas de motociclistas passando muito rápido por nós, e a população local parada em algumas curvas como platéia, acenando quando os motociclistas passavam. Atravessamos uma subida bastante íngreme nessa situação. Quando começamos a descida não havia mais motos na estrada. Reencontramos a estrada Tere-Friburgo no km 60 e fomos até a rodoviária Sul. Nova Friburgo tem duas rodoviárias. A Sul é a que tem possibilidade de armazenar as bicicletas no bagageiro do ônibus. Do abrigo do Portela até a rodoviária Sul fizemos 32 km por este caminho.

Não fizemos o cume, mas ficamos muito felizes com a atividade. A interação foi deliciosamente agradável entre os amigos e fisicamente nos sentimos bastante bem, diante das atividades.

Várias fotos estão disponíveis em https://www.facebook.com/hrauschmayer/media_set?set=a.837405806328935.100001785707205&type=3

O cume está lá. Fica o convite e sugestão da repetição da atividade.


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