16/03/2002 | Escalavrado |
TODOS |
| Por: Carlos Wagner Santos O dia nasceu mais cedo hoje. São cinco horas da manha e já estou de pé. Ta tudo escuro ainda, mas do terraço já da pra ver que não tem vento. A frente não chegou e o sudoeste ainda deve estar lá pra trás das bandas da Mantiqueira ... Ainda bem. Se Deus quiser , o Norte será nosso companheiro de escalada hoje. E é pra lá que vamos hoje. A Norte-nordeste da cidade maravilhosa, bem no sopé da Serra dos Órgãos. A pedra se chama Escalavrado. Uma beleza. O Escalavrado é a primeira das grandes montanhas que compõem a cadeia da serra dos Órgãos. Uma pedra de aproximadamente 1.400m de altura, que pra quem olha bem de baixo, mais parece uma grande onda de granito que não quebrou ... Pelo menos é assim que me lembro dela e da ultima vez que estive lá... E já faz tempo. Tem pelo menos uns 6 anos ... Será que continua tudo igual ? Ou será que os homens já destruíram também mais esse santuário ? Com pensamentos assim, uma mochila nada leve e muito sono, ligo o carro pra começar mais uma excursão. Um pequeno desvio e pego meu camarada Paulinho, antes de chegar lá no "pulgueiro" - tradicional ponto de encontro lightiano na Rodoviária Novo Rio. Caraca!! tava um breu só e pra piorar, ninguém por perto. É ... Será que depois de tanto tempo eu já esqueci onde fica o "pulgueiro" ???? Não pode ser ... Paulinho, gaiato como sempre, solta uma perola ... "só pode ser trote !". E soaram boas gargalhadas na madrugada do pulgueiro. Há quem diga que, após o sono diário, só se acorda de verdade após um sorriso e uma boa risada. Quem assim não o faz, segue o dia com o corpo acordado mas com a alma ainda dormindo... Acho que concordo 100%. Então já estávamos prontos e acordados e não demorou muito pro resto do pessoal aparecer também... apenas 1 hora!!! Filber (vulgo-Flipper) apareceu logo em seguida, Mônica, Ezequiel e Cosme, um pouco depois. A Paula foi a lanterninha, enganada por um e-mail "torto" do Cosme. Mas tudo bem, rapidamente embarcamos e tocamos pra cima, digo, pra serra. Não levamos mais que hora e meia ate o posto Garrafao, onde deixamos pra trás os carros e a cordial rapaziada do CERJ que estava rumando pro capucho do Frade (seja lá onde for isso... alguém aí sabe onde fica o capucho do frade?). A excursão pro Escalavrado é classificada como escalaminhada, com lances de 1º e 2º grau. Só que pra mim, o crux mesmo, fica no trecho entre o Garrafão e o inicio da trilha. A subida pelo acostamento da estrada com carros, caminhões e loucos motorizados de toda espécie faz a adrenalina subir. Lance sinistro. Escapamos com sorte e finalmente chegamos no inicio da trilha às 9h. Foi com alegria que, tomando a frente do pessoal, pisei o chão macio da floresta e fiz os primeiros lances da canaleta de mato. Cosme cerrou a fila. A estiagem dos últimos dias facilitou as coisas, pois a trilha estava bem seca e usando bem a aderência da pedra não tivemos problemas pra subir, sempre seguindo os grampos de rapel ate o primeiro platô de mato. O pessoal iniciante do CBM já pode perceber que na montanha o calçado certo é imprescindível e que com o sol já arrebentando, filtro solar é algo que não pode faltar. Subimos mais um pequeno trecho de trilha, com a primeira vista e muitas fotos do Dedo de Deus, e chegamos no lance de escalada da via. Nosso impagável guia Cosme foi na frente pra fixar a corda pro pessoal. Paulo e Ezequiel resolveram solar o lance. Tudo bem ... cada louco com sua mania. Preferi esperar a segurança, aproveitando o visual e batendo papo com o pessoal da retaguarda. Paula, Mônica e Filber estavam bem e fizeram o lance sem problemas. Fiquei feliz de ver que, apos mais um trepa-mato, já havíamos alcançado o "lombo do burro" e a quase infinita crista do Escalavrado se apresentava bem acima de nos. Dali em diante, o visual fica fantástico, o vazio dos vales começa a se impor e pudemos ver todas as outras montanhas da serra : Dedo de Deus, dedinhos, Dedo de Nossa Sra, Garrafão, Sino, São Pedro, Frade, Cabeça do Peixe e tantas outras mais. Diz o Cosme que viu também a Agulha do Diabo, mas as nuvens não me deram esse privilégio. O tempo ficou estável e tirando o calor, o dia estava perfeito pra subir montanhas. Encontramos alguns outros montanhistas descendo - sendo que todos eles sem qualquer equipamento de segurança!!! E como todo guia de montanha, acabei ficando preocupado. Será que aquelas pessoas não consideram a possibilidade do tempo mudar?? De serem surpreendidas por uma tempestade de verão tão comum nessa época ?? Como descer o lombo do burro debaixo de uma cachoeira e sem auxilio nenhum ?? Será que a vida delas vale tão pouco ?? Quando as perguntas começaram a ficar sem resposta, achei melhor parar e voltar a subir. Afinal com o diz a sabedoria infinita do nosso guia Cosme : "Só o cume interessa !!!". O pessoal já estava quase lá quando os alcancei e fizemos os últimos metros da escalada. Seguiram-se os tradicionais cumprimentos, livro de cume e rango!!! Após uma escalada, a hora do rango é tudo de bom !!! E bom mesmo foi ver que minha barra de chocolate tinha derretido e virado um toddynho sem canudinho! E que o misto quente que ofereci ao Cosme foi parar dentro de sua bota de caminhada!! "Má rapá !!! Não Cosme, obrigado ! Pode ficar ! acho que não estou mais com fome !! ahahahaha!!! ". E tive que me abastecer com as minhas dog-shits e filar as laranjas do Ezequiel. Ou seja, um verdadeiro banquete. Mas o dia estava ótimo e não tivemos pressa. Ainda ficamos de papo um bom tempo por lá, antes de começarmos a descida, que como eu já sabia, seria bem mais lenta e complicada que a subida. Revezando a dianteira, Cosme e eu encordamos vários trechos, usando as cordas de 50m e preferimos usar o rapel "duplo", um montanhista em cada corda, nos trechos mais longos. Foram mais de três rapeis ate o final da via. O que me fez pensar quão demorada deve ser a descida da "Infinita Highway", via de aderência em 6o grau, na face Sul-Sudoeste do Escalavrado. É uma via longa com mais de dez enfiadas em uma diagonal literalmente "infinita", que como diz o Flavio Doce, pode ser bem descrita como um grande zig-zag, sendo que são uns 10 zigs e um único zag ! Que via !!! Uma beleza que quem sabe ... qualquer dia. De novo, no crux da via, ou melhor, na estrada, voltamos uma vez mais a civilização. Apos um bom alongamento seguido de água, chá gelado, cervejas e muito papo furado com as balconistas do posto Garrafão, finalmente descemos a serra já com as primeiras gotas de uma chuva de verão. Valeu Escalavrado ! Até a próxima ... |
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