ONDE ESTIVEMOS ::
2000-06-25 | Nova via na Pedra da Gaveta, Pancas (ES)

Por: Renato Moura

Paredão Carlos Bernardo
Informações gerais:
- Escalada de 700 metros
- Altitude Pedra da Gaveta: 756 m
- Aderência da base até o Platô dos Macacos : 470 metros - 5ºsup VII D3
- Chaminé dos Quatis : 150 metros - 5º E4
- Diagonal da saída da Chaminé dos Quatis até a entrada da Gaveta do Gavião: 5 º E 4
- Gaveta do Gavião 100 metros de frente x 30 metros de profundidade x 50 metros de altura
- Diagonal da saída da Gaveta artificial de cliff talon e 6º E3

Fiquei muito animado quando o amigo Gustavo Silvano me convidou para uma nova conquista em Pancas. Pelo meu conhecimento, só existia uma via conquistada na cidade: a Chaminé Brasília, na Pedra da Agulha, de 1958.

Nossa primeira investida foi entre os dias 21 e 25 de junho de 2000, um feriado. Mesmo conhecendo outras regiões do ES, nunca havia escalado em Pancas. Para chegar lá, pegamos a BR 101 com o meu Fiat Mile "Trovão Azul"e quase chegando em Vitória seguimos pela BR 262, estrada que leva à cidade de Venda Nova do Imigrante, onde fica o Parque Estadual da Pedra Azul. Seguir até Colatina e depois rumar para Pancas. Da região, lembro-me da semana que passei na casa do Amigo Roberto Tristão, Diretor do CUMES e também, ali perto, da pedra do Forno Grande. Mais a frente Afonso Cláudio.

Gustavo fez um contato com a prefeitura de Pancas e conseguimos uma casa para ficarmos (onde a prefeitura hospedava os praticantes de vôo livre), toda alimentação, o combustível de ida e volta e mais 50 grampos que encomendamos com Chiquinho. Tínhamos cozinheira e tudo para preparar nosso café, muito chique. Fomos recebidos pelo prefeito, trazendo a hospitalidade do povo de Pancas.
Maxuel e Fatinha, nosso contato na prefeitura, nos levou ao sítio mais próximo da Pedra da Gaveta, que por coincidência foi o mesmo que recebeu os conquistadores da Pedra da Agulha, em 58. Com um binóculo, começamos a estudar uma possível rota até ao cume. Segundo a lenda dos moradores locais, haveria uma arca de ouro na Pedra da Gaveta.

Subimos de carro pela estrada de barro dentro do cafezal, até onde deu, e com o facão na mão começamos abrir uma picada. Em aproximadamente duas horas chegamos na base da rota pretendida. Já era final da tarde, mas a vontade de escalar era tanta que, depois de montarmos o acampamento, começamos a escalar no mesmo dia, já noite. Subi uns 6 metros e bati o primeiro grampo, em uma aderência de 4º grau . Gustavo, emocionado, filmava tudo e me chamou de Bernardo. Eu falei que o amigo Bernardo também deveria estar nesta conosco, mas não pode por causa do trabalho. Logo neste primeiro dia decidimos o nome da via: Paredão Carlos Bernardo.

Segundo dia, uma grande aderência, em 5º sup. No outro dia, quando voltamos ao cafezal, fomos recebidos pelos dois filhos do Sr. Luiz Romais, que esteve no acampamento da conquista da Pedra da Agulha em 1958. Os rapazes nos acompanharam até a base da pedra e quando eu e Gustavo começamos a jumarear começou a descer pedra lá do alto. Os rapazes se esconderam atrás das arvores e nós só tivemos tempo de nos encostar bem junto da rocha e rezar. Percebemos que as pedras tinham vindo do platô onde dormiam os macacos, batizado então de Platô dos Macacos, nosso primeiro objetivo, que deveria estar no meio da rocha mais ou menos.

No outro diacomecei conquistando e quando estava na minha Gustavo fotografava, filmava e me indicava uma boa rota para seguir. Na parte da tarde, quando já estava a mais de 180 metros, segundo meu altímetro, pude filmar um bando de bugios na copas das árvores, bem abaixo de nós. Descemos já noite. No dia seguinte, às 8h30 já estávamos na rocha. Mas tarde Maxuel nos traria um repórter e um cinegrafista da TV Gazeta Colatina. Descemos para a entrevista, que foi ao ar em horário nobre.

A segunda investida foi no feriado da padroeira do Brasil, do dia 11 ao 15 de novembro de 2000. Agora contávamos com o amigo Cosme no grupo. E desta vez de carro novo, com o pálio branco que logo foi batizado pelo Cosme de "pomba da paz". A parede continuava em uma aderência de 5º sup, só alterando a graduação em alguns lances. E assim foram todos os dias. Ora eu, ora Gustavo, ora Cosme estava na frente da corda, com marreta, broca e "fuque-fuque" na mão. Outra vez concedemos uma entrevista à TV Gazeta. Os últimos grampos dessa investida foram batidos pelos Cosme, usando agora artificial em cliff tallo. A qualquer oportunidade, filmávamos e fotografávamos tudo. Paramos a uns 60 metros do Platô dos Macacos e podemos observar que teríamos de fazer artificial de cliff tallo até o platô.Gustavo desceu na frente para desmontar o acampamento, enquanto Eu e Cosme descemos limpando a via. Voltamos um pouco desanimados, mas o altímetro já marcava 415 metros até onde fomos, o que era bom pelo tamanho da rocha. Mas pensar no que faltava ainda dava uma tristeza.

A terceira e última investida só aconteceu entre os dias 19 e 31 de agosto de 2002. Novamente nós três: eu, Gustavo e Cosme. Depois de toda a arrumação, pegamos a estrada e chegamos no dia seguinte, às 2h da madrugada em Pancas. Pela manhã fomos recebidos pelo Sr.Marcelo Ramos, da prefeitura, que nos deu toda a assistência. Desta vez ficamos no Hotel Acácia. Ainda no café da manhã, conhecemos o Secretário de Obras, Sr. Cláudio Egete, que nos levou até a Pedra da Gaveta para mostrar um rota de descida do cume, para não rapelarmos a via como equipo pesado. Nos levou também para conhecer o Vale do Palmital, onde tem quatro montanhas enfileiradas, todas lindas, com mais de 600 metros e sem nenhuma via de escalada.

Iniciamos a escalada às 13h. Gustavo repetia a via abandonada há dois anos sem dificuldade, e às 17h30 chegamos no ultimo grampo batido pelo Cosme em 2000. Gustavo ainda bateu dois grampos escalando em artificial de cliff, mas descemos a parede encordada.
No dia seguinte choveu, então fizemos uma visita à Prefeitura, onde conhecemos o belo trabalho realizado pelo prefeito e sua equipe. Mais um dia de chuva: fomos conhecer o novo prefeito e visitar a Pedra do Leitão. Eu e Gustavo abrimos uma picada e em menos de uma hora e meia estávamos encostados na parede. Pudemos analisar a rocha para o futuro.

No terceiro dia, mesmo com chuva, levamos toda a água para a base e depois do almoço fomos ver os amigos do vôo livre com seus parapentes. No quarto dia, enfim, subimos jumareando e recomeçamos a conquista. Neste mesmo dia, no final da tarde, atingimos o cobiçado Platô dos Macacos em uma bonita artificial de cliff . Fizemos uma grande festa pela conquista do platô, de onde pude analisar a grande chaminé de uns 150 metros. No dia seguinte, eu e Cosme entramos na chaminé com o material de conquista, e um jogo de friends. No começo a chaminé apresentava um 5 º E5, ia deixando no caminho uma fita em bico de pedra , um friend aqui e outro ali ,estiquei quase 50 metros de corda e bati o único grampo do dia. Rapelamos já no escuro. No dia seguinte, a chuva nos reteve novamente e aproveitamos para visitar a rampa de vôo livre e ver os amigos de Pancas voarem. À noite fomos ao Foro da cidade e depois desocupamos o quarto do hotel com a finalidade de subir e só descer depois de conquistar a rocha. Subimos com tudo para o Platô dos Macacos e Cosme conquistou uns 40 metros de chaminé onde bateu um grampo.

Já no dia 27 de agosto, depois do café, comecei conquistando e logo no começo passei por dois quatis acuados no fundo da chaminé. Logo começamos a denominar de Chaminé dos Quatis. A chaminé se estreitou de um modo que se eu enchesse os pulmões de ar não haveria jeito de cair. Escalei uns 40 metros e bati um grampo. Cosme tomou a frente, conquistando os últimos e mais difíceis metros e bateu o quarto e ultimo grampo da chaminé, a uns 25 metros (média de 5º E 4). Sua joelheira desceu e ele, impossibilitado de recolocá-la devido o grande grau de exposição, acabou ferindo o joelho direito. Alegres por ter conquistado toda a Chaminé dos Quatis, descemos com chuva para o acampamento feito pelo Gustavo no Platô dos Macacos. Gustavo estava tão curioso que subiu jumareando, mesmo com a chuva que caía, e analisou o que faltava para chegarmos na entrada da Gaveta.

No dia seguinte, Gustavo e Cosme, com quatro grampos, conquistaram uma diagonal de 5º E 4 que separava a Chaminé dos Quatis da entrada da gaveta. Eu limpava a parede, cuidava dos equipamentos, filmagem e fotografava pacientemente. Chegamos à Gaveta ás 14h e muito contentes pela façanha. A boca da Gaveta encontra-se a 625 metros de altura, com 100 metros de extensão de frente, 30 metros de profundidade e 50 metros de altura. Muito linda! Foi melhor do que encontrar uma arca de ouro. Logo chamei de Gaveta do Gavião, por haver grandes gaviões morando em seu interior. Já quase noite , desci na frente com alguns grampos, fazendo uma rota de descida até o acampamento no Platô dos Macacos, por fora da chaminé, para facilitar a subida dos equipamentos, mantimentos e as lonas para nosso acampamento.

Nossa ultima noite no Platô dos Macacos foi marcante. Enfrentarmos uma forte chuva que começou às 2h da madrugada e persistiu até às 6h. Equilibrávamos em nossas redinhas e ajustamos bem as lonas que nos protegiam da chuva. Pela manhã colocamos tudo que estava molhado para secar ao sol e com muita dificuldade rebocamos tudo que precisávamos para a Gaveta do Gavião. Só conseguimos chegar à tarde .Ventava muito. Montamos o acampamento dentro da Gaveta e colocamos uma marmita com livro. Depois deu uma conversa, decidimos não fazer o teto da gaveta, pois demandaria mais dias. Cosme e Gustavo saíram da gaveta em 6 º E3, bateram 4 grampos e retornaram para dormir. A noite estava linda, lua cheia ,céu estrelado, mas ventava muito.

No dia 30 de agosto, último dia, acordei às 4 da madruga e não consegui dormir mais. Assim que o grande astro deu o ar de sua graça, levantamos munidos de máquina fotográfica. Estava alegre, pois tinha certeza que chegaríamos no cume naquele dia. Tomamos café e aproveitamos um banho de sol por umas duas horas acompanhados de muita preguiça matinal. As pessoas lá na estrada acenavam e gritavam para nós.

Recolhemos os equipamentos, comida e água que estavam na gaveta e subimos. Gustavo, que estava com maior vigor físico, seguia à frente e Cosme, pacientemente, dava-lhe segurança, enquanto eu filmava e fotografava. Fizemos um trecho de 6º E3 e depois a parede se sentido quase vencida ia suavizando para um 4º. Depois sua inclinação cedeu e chegamos os três caminhando de mãos dadas até o cume. Meu relógio marcava 15 horas. Nos felicitamos, fizemos o livro de cume e registramos todo ocorrido nos filmes. Pude agradecer aos dois companheiros pela ajuda na realização do meu sonho, de estar ali em cima admirando os 360 graus desta maravilhosa e aconchegante cidade, já com outro sonho na cabeça.


Visualizar Onde Estivemos CEL em um mapa maior