20/03/2000 | Uma turnê capixaba: escalando no Espírito Santo |
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| Por: José Renato de Souza Moura Sempre tive um sonho de escalar o Frade e a Freira no Espírito Santo. Então conversei o Eduardo R.C. sobre a possibilidade de viajarmos com o objetivo de conhecer novas rochas para futuras escaladas. Viajei com minha família, de férias, em janeiro e o Edu começou a colher informações sobre o ES. Na volta, marcamos um encontro em minha casa, fizemos uma lista do que íamos levar e vi os contatos que ele conseguiu com nosso amigo Flávio de Aguiar. Um deles era o Duda, escalador de Vitória, com quem pegamos boas dicas sobre a Pedra do Itabira, em Cachoeiro de Itapemirim, e o telefone do Quincas e do Roberto, escaladores de Cachoeiro. Numa segunda à noite, Edu me ligou do CEB dizendo que o Gustavo iria conosco. Eu sugeri ao Edu que procurasse o Antonio Dias, do Brasileiro, para consultas sobre a Pedra do Lagarto, localizada no Parque Estadual de Pedra Azul, em Domingos Martins (ES). Antonio nos deu boas dicas, ele foi um dos conquistadores da via. Ele contou que a primeira investida foi em 16-18/08/74, feita por ele, Amauri Telles Menezes, Francesco Berardi, Mario Alexandre Filho e Marcello Esfossel de Paiva Xavier. A segunda investida foi em 17-21/01/75, por Antonio Dias, Francesco Berardi, Mario Alexandre Filho e Mario Luiz Arnaud. A 3ª investida foi em 19-27/07/75, com Antonio Dias, Francesco Berardi, Marcello Esfosel de Paiva Xavier e Mario Luiz Arnaud. A 4ª e última investida foi de 29/07/76 a 03/08/76, por Berardi, Mario Arnaud, Marcello e Antonio Dias. Embarcamos no dia seguinte e fomos direto para Cachoeiro de Itapemirim. Chegamos com muita chuva e fomos perguntando onde podíamos ir para atingir a Pedra do Itabira. Paramos no começo de uma estrada de barro de onde podíamos ver a pedra, mas voltou a chover tão forte que a Pedra sumiu no meio da nuvem. Resolvemos procurar o Quincas e o Roberto, nossos contatos. Não encontramos os escaladores, mas conhecemos o soldado Deco, que nos indicou para o dono de um sítio bem próximo à pedra: Sr. Rafael. Fomos muito bem recebidos por ele e por seu filho Ricardo, um rapaz de 14 anos, que muito nos ajudou. Armamos nossas barracas num terrenão cercado de árvores frondosas. Depois, conversamos com o Sr. Rafael e Ricardinho e dissemos que nós precisávamos de uma dica de onde começava a via e perguntamos se eles não conheciam o Quincas e o Roberto. Ricardinho se lembrava do Roberto e disse que ele trabalhava numa espécie de quitanda. Chegando lá nos disseram que o Roberto tinha mudado para Pedra Azul, ES. Então fomos procurar o Joaquim, o “Quincas”, que nos recebeu muito alegre e nos levou para a casa do escalador Magno Santos, que tinha o croqui da via e informações. Magno nos recebeu muito bem, fez para nós um croqui e ainda nos emprestou um jogo de friends. Chegando ao sítio às 23h, comemos e dormimos ansiosos, um pouco preocupados com a chuva da tarde. Por outro lado, estávamos contentes: chegamos tarde, fomos bem recebidos no sítio, conseguimos o croqui da via e um jogo de friends. Era ou não era muita sorte! Acordamos às 7h23 e às 9h43 começamos a escalada. Esta primeira parte era a mais difícil da via. A primeira parada era depois das correntinhas. Foi quando começou a chover. Não falei nada como meus parceiros mas lembrei do aviso do Quincas no dia anterior sobre a chuva. A chuva não cedia, então Gustavo e Edu me perguntaram o que eu achava. Fiquei calado, pensando com meu botões: será que passa? Mas pensava também na chaminé “Suplício Chinês”. Quando encontramos obstáculos provocados pelos fenômenos da natureza, penso no ditado que meu amigo Bernardo sempre me fala: “Renato, vamos deixar para outro dia. A montanha não vai fugir daí”. Quando fui indagado novamente falei que era melhor retornarmos e voltarmos em outra ocasião. Às 17h30 já estávamos de volta ao sítio. Ricardinho nos aguardava, pois estivera nos observando com o binóculo que eu tinha emprestado. Então, conheci o pai do Sr. Rafael, que nos contou que abrigara os conquistadores em 1947. Ele lembra-se do Indio, Amancio, Ieda, Panela, Jorge (Panelinha), Silvio Bersa, Maria Helena José Emílio. E depois a segunda via em 1958 por Gerard e Claudio. Tomamos um banho, colocamos uma roupa limpa e fomos para a casa do Sr. Rafael, que tinha nos convidado para o jantar. A comida era deliciosa, feita por Dona Regina, esposa do Sr. Rafael. Não conseguíamos parar de comer, em especial aquele torresminho. Trocamos uma longa e gostosa prosa. Na manhã seguinte, acordamos sem pressa e arrumamos nossas coisas no carro. Nos despedimos da família do Sr. Rafael, passamos apressados pela casa do Quincas para devolver o material e rumamos para a BR 101, para a cidade de São José do Frade. Entramos por uma porteira na BR e após passarmos por umas oito porteiras que dividiam as fazendas achamos melhor estacionar o carro e seguir o restante caminhando. Começamos a subida por um caminho que ainda tinha um resto de Mata Atlântica e uma escalaminhada para chegar ao cume, com dois grampos, em artificial. Toda escalada ao Frade, ida e volta, não gastou mais de 4 horas. Do cume tínhamos um grande visual, avistávamos a Pedra do Itabira, várias outras motanhas e o litoral capixaba. Chegamos ao carro à 15h32 e fomos pela Rodovia do Sol até Guarapari, onde pernoitarmos. Depois de um reforçado café, arrumamos tudo e fomos para o Parque Estadual de Pedra Azul. Chegando lá, avistamos da BR 262 a Pedra do Lagarto, unida à Pedra Azul, no município de Domingos Martins. No Parque destacam-se a Pedra Azul com 1.822 metros e a Pedra das Flores com 1.909 metros. Sua fauna é diversificada, possuindo diversas espécies, tais como: macaco prego, tatu, tamanduá-de-colete, jaguatirica, tucano, araponga, veado catingueiro, mão-pelada, trinca-ferro, sabiá, sagui da serra, onça pintada e o barbado. A vegetação é rupestre e de Floresta Ombrofila Altimontana. As principais espécies encontradas são orquídeas, bromélias, ingás, cedros, cássias, ipês, além de várias espécies de canela. Além disso possui trilhas como a do Lagarto, com 480 metros, de onde se contempla o Caparaó, o Parque Estadual de Forno Grande e as piscinas naturais. Chegando à sede do Parque conversamos com os Guardas Florestais José Bello e Carlos que nos atenderam muito bem e com quem fizemos uma grande amizade. Começamos a trilha que leva ao cume da Pedra Azul e às cachoeiras. Depois de uma adrenalina na escadinha de ferro, atingimos o cume em duas horas. Edu que não estava se sentindo bem foi o primeiro a descer. Eu e Gustavo curtimos o visual e descemos até as piscinas naturais para um bom banho e uma hidromassagem, afinal nós também somos filhos de Deus. Tínhamos que descansar para tentarmos escalar a Pedra do Lagarto no dia seguinte. Às 7 h já estávamos na base da Pedra, procurando o primeiro grampo. Começamos a escalada em uma aderência, depois uma artificial com parada dupla e entramos na primeira chaminé com uma pedra que esfarelava em nossas mãos, sem falar da umidade e do limo. Ficamos mais de uma hora para concluirmos, sendo que nós três tentamos e Gustavo foi quem conseguiu. Encontramos um platô com muitas árvores. Edu continuava a sentir-se mau, então resolvemos parar e ficar ali aguardando um tempo. Recomecei a escalar, costurei o grampo e senti que as pedras estavam mais encharcadas que da chaminé anterior e as pedras se esfarelando. Tínhamos que nos proteger melhor e nós só tínhamos um friend. Gustavo veio para o salão para tentar a passagem mas resolvemos retornar e voltar em outra ocasião. A pedra não vai fugir dali. Descemos e na base da Pedra do Lagarto nos aguardavam o escalador Roberto - aquele que procuramos em Cachoeiro de Itapemirim e ela tinha se mudado para Venda Nova dos Imigrantes - junto com o Guarda Florestal José Bello. Trocamos informações e novidades e Roberto contou que estava conquistando o paredão rochoso de 500 metros da Pedra Azul e chegaram a atingir uma gruta um pouco abaixo do “Cabo da Espingarda” (um conjunto de grutas que compõem a forma de uma espingarda”. Na manhã seguinte fomos ao museu e também na administração do Parque. Lá pudemos ver embalsamados várias espécies de nossa fauna, armadilhas apreendidas, fotos em flagrantes de caçadores, etc. Nos despedimos do guarda e do pessoal da administração e rumamos direto para o Rio, sem escala. Nestes seis dias rodamos 1.275 km, fizemos muitos amigos e apertamos mais nossos laços de amizade. |
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