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Nova bandeira do CEL no cume do Kilimanjaro

Por Marcus Vinicius Carrasqueira (Diretor de Meio Ambiente)

Vacina contra febre amarela é obrigatória no trânsito internacional! Um amigo me aconselhou a procurar o Centro de Viajantes da Fiocruz para avaliação dos riscos de doenças na região africana da minha viagem. Esse serviço público é de ótima qualidade e acessível por telefone. O médico especialista recomendou doses únicas contra difteria, tétano, cólera, poliomielite e influenza e doses triplas contra tifo, raiva e hepatite B. Depois de tantas agulhadas me senti o próprio bonequinho de vodu todo espetado! Qualquer viagem de aventura requer planejamento detalhado com meses de antecedência. Após o carnaval iniciei a investigação das épocas mais apropriadas e me interessei por agosto, mês de frio, mas ainda seco, com poucas chances de chuva ou de nuvens encobrindo o topo. Considerando dólar em baixa, parcelamento no cartão e estabilidade política na Tanzânia não tive dúvidas de que tudo conspirava a meu favor! Era agora ou nunca! A decisão foi tomada em março e logo abri duas frentes de preparativos: físicos e logísticos. Abandonei o uso de elevadores, passei a correr todo dia na praia e reduzi o consumo de doces. Em paralelo percorri o circuito das lojas de montanhismo em busca de novidades. Nos tempos livres vasculhava na internet os relatos daqueles que tinham realizado o mesmo intento. Encontrei dicas preciosas de pessoas que compartilharam gratuitamente suas experiências e que fizeram diferença no meu conforto e segurança na montanha! Saber sobre os perrengues que me esperavam também serviu como preparação psicológica!

A primeira informação obtida na pesquisa: não é permitida a entrada de estrangeiros no Parque Nacional do Kilimanjaro – PNK sem a presença de um guia local, sendo vetado o uso de animais de carga ou veículos motorizados para transporte. Se minha opção fosse viajar sozinho teria de, obrigatoriamente, contratar um guia, um cozinheiro e quatro carregadores, no mínimo, alem de providenciar abrigo, combustível e alimentação para essa turma pelos seis dias seguintes. Não me animei com esse caminho, pois seria uma produção trabalhosa demais para quem queria apenas sair de férias! A opção restante seria a contratação de uma operadora que oferecesse o pacote pronto, podendo ser africana ou brasileira. Escolhi a empresa do Manoel Morgado, um escalador experiente, médico por formação profissional, possui o Everest em seu currículo, subiu os sete maiores cumes continentais e cultiva o inusitado habito de escalar o pico mais alto de cada pais que visita, entre outras atividades de aventura!

Airton Ortiz cita em seu livro Aventura no Topo da Africa que o Kilimanjaro é a mais alta montanha isolada do planeta, pois as outras estão encravadas em grandes cordilheiras. O complexo chamado Kilimanjaro (ou montanha branca, em swahili) é a elevação de três vulcões distintos e inativos (porém não extintos tecnicamente), cujo derramamento contínuo de lava formou um altiplano que os conectou entre si: Kibo, o mais novo, com 5.895 metros; Mawensi, com 5.354 metros; Shira, com 3.778 metros. A última erupção ocorreu há 100 mil anos, fato que me deixou mais tranquilo para a escalada!

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Seguro especial de esportes de risco feito, hora de viajar! Me despedi da cargueira no Galeão e a reencontrei no aeroporto de Kilimanjaro, depois de mudar de voos e companhias aéreas em São Paulo, Joannesburg e Nairobi. Sorte minha, pois uma colega do grupo teve suas mochilas extraviadas e precisou fazer uma vaquinha de roupas de frio e até de bota entre os demais para tentar o cume. Apesar das crises de choro, ela é brasileira e não desiste nunca! Tanto em Moshi quanto em Arusha é possível alugar todos os itens básicos necessários para a escalada, em tese algo interessante, pois evita levar mochilas muito cheias do Brasil - apenas o sleep bag e o casaco de pena de ganso ocupam um volume de 40 litros. Os produtos anunciados não apresentam a mesma qualidade daqueles que estamos acostumados! Por precaução, é melhor conferir várias vezes o funcionamento dos zíperes na frente do lojista antes de sacramentar negócio. Meu colega de barraca descobriu que o fecho do sleep bag alugado estava com defeito e passou aperto a cada novo acampamento mais frio que o anterior. Um sleep bag com temperatura média de conforto de 15 graus negativos é o mais adequado. Achei melhor levar tudo daqui!

Adriana Miller descreve em seu blog que seis rotas de ascensão podem levar ao topo do Kilimanjaro e, por questão de segurança, o visitante não pode se desviar do caminho acordado com a direção do PNK. A trilha Marangu é a mais antiga, bem demarcada, possui a melhor infra-estrutura de apoio turístico e, por ser muito popular, ganhou o curioso apelido de Coca-Cola. A trilha Mechame é semelhante à anterior, porém mais longa, íngreme e difícil, sendo batizada de Whisky por ser igualmente bem conhecida, mas não é para qualquer um. As demais trilhas são Lemosho, Shira, Rongai e Umbwe. Também existe a trilha Mweka, usada somente para descida. Manoel Morgado escolheu a rota Rongai para subir e a rota Marangu para descer. Rongai é a única trilha que sobe pelo lado norte, sendo a mais rústica, seca, remota, pouco frequentada e a que atravessa o maior número de ambientes naturais.
Voltando ao livro do Airton encontramos que o primeiro europeu a perceber a montanha nevada foi Johannes Rebmann, missionário alemão que, em 1.848 escreveu em seu diário: “observei algo notadamente branco no cume da montanha e aquilo só poderia ser neve”. Em 1.862 o barão Karl Klaus Decken, explorador alemão, atingiu os 4.200 metros e retornou ao chegar à linha nevada. Outro missionário chamado Charles New, em 1.871, inaugurou o pisoteio sobre as neves do Kilimanjaro, voltando dos 4.420 metros por não estar equipado para prosseguir nesse tipo de terreno. O geógrafo alemão Hans Meyer e o montanhista austríaco Ludwig Purtscheller finalmente conquistaram o teto africano em 1.889, sendo merecedores de homenagens gravadas em placas na entrada principal do PNK. Marcus Gasques informa no seu livro Montanha em Fúria que, em 1.991, nosso saudoso Mozart Catão escalou o Kilimanjaro em 17 e ½ horas, recorde não superado nem mesmo pelos nativos e guias locais.

O plano de escalada distribuído pelo guia previa seis dias entre subida e descida, com pernoites em barracas. A roupagem merece atenção, uma vez que a temperatura varia gradualmente na medida em que subimos. Tivemos dias ensolarados e, no início, pudemos caminhar de bermuda. Rodrigo Raineri informa no site Grade 6 que a temperatura pode atingir 15 graus negativos na madrugada do ataque final. O guia orientou que estivéssemos preparados para essa condição com três camadas de roupas protetoras no corpo inteiro. Minha roupagem consistiu em uma primeira camada formada pela clássica segunda pele (pernas e tronco), uma segunda camada feita com pulôver forrado de flanela e um agasalho andino de vicunha e uma terceira camada com um grosso casaco sintético corta-vento que cumpre o mesmo papel do casaco de pena de ganso (na verdade, quatro camadas). Nas pernas usei a segunda pele, uma ceroula inteiriça de lã com meia, uma calça de tactel e uma calça impermeável. A alimentação mereceu um cuidado especial da minha parte. Eu sabia que a operadora oferecia café da manhã, almoço, lanche e jantar, então providenciei meus próprios petiscos para beliscar durante a caminhada. Estimei um consumo médio e levei uma cota calculada de polenguinho, chocolate, uvas passas, barras protéicas, castanha-do-pará, castanha-de-caju e mariola, essa última protagonista de enorme sucesso entre os participantes. Na reunião preparatória na noite que antecedeu o trekking, o guia informou que o gasto energético pode chegar a 5 mil calorias diárias.

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A saída se deu pela manhã da pousada Snow-Cap Cottages, localizada a 1.920 metros de altitude na entrada da rota Rongai do PNK. Nesse dia caminhamos por 4 horas até Sekimba Campsite, a 2.600 metros. No outro dia seguimos por 8 horas até Kikelewa Cave, onde descansamos a 3.600 metros. No terceiro dia trilhamos por 4 horas até chegarmos em Tarn Hut, um acampamento situado a 4.330 metros no que sobrou da cratera do vulcão Mawenzi. Aqui foi possível lavar o corpo com sabonete em ritual primitivo que lembra um banho doméstico dentro de uma tenda adaptada. A operadora improvisou uma ducha desferida através de pulverizador manual de uso agrícola bombeado incansavelmente por um trabalhador, com água fria recolhida do lago. Se o dia estiver quente - e se não entrar rato silvestre no biombo para assustar as moças - a sensação ao sair é de renascimento! Na real, são seis dias tomando banho de lencinho umedecido!

Ainda nesse lugar fizemos parada de um dia para aclimatação, subindo até 4.800 metros e retornando para dormir em altitude inferior, em 6 horas de caminhada. Não são todas as operadoras que adotam esse procedimento! Edson Ferreira comenta no site Caminhos Verticais que o mal da montanha é uma doença provocada pela falta de oxigênio nas grandes altitudes, em geral a partir de 3.000 metros, cujos principais sintomas são dor de cabeça contínua, náuseas, insônia, tosse seca e falta de fôlego mesmo em descanso. Além da introdução do dia extra de aclimatação, outras medidas foram tomadas pelo guia para minimizar o risco do mal da montanha, entre elas a orientação de ingerir 5 litros de água por dia. Procurei tomar meio litro durante o café da manhã na forma de achocolatado e meio litro à noite através de sopa. Ao longo do dia mantive uma rigorosa disciplina militar de beber um generoso gole de água a cada 30 minutos, contadinho no relógio. A ingestão de pequenas doses diárias de diamox também foi recomendada por Manoel Morgado, na dosagem de meio comprimido duas vezes ao dia, iniciando no dia anterior ao da escalada. Esse medicamento é comumente empregado por montanhistas para aumentar as chances de sucesso de cume e pude confirmar isso ao inquirir aleatoriamente os guias dos grupos de trekkers da Inglaterra e da Austrália. Diamox é incompatível com aspirina, alertou o guia!

O efetivo humano completo dessa aventura foi formado por um guia principal, seis guias locais, treze participantes, dois cozinheiros, dois ajudantes de cozinha e trinta carregadores, uma imagem que lembra os filmes africanos produzidos por Hollywood. Os trekkers dormiram em barracas duplas e os trabalhadores se dividiam em cinco outras grandes barracas canadenses tipo campanha, o guia tinha a sua individual, havia uma grande barraca-refeitório, uma barraca-cozinha, uma tenda para o banho aspergido e uma tenda-sanitário com vaso portátil. Preferi usar as latrinas disponíveis em todos os acampamentos por serem mais espaçosas e apresentarem o clássico sistema de cócoras com apoio para os pés. Todavia elas oferecem o risco de se pagar um alto preço por qualquer descuido: vi uma holandesa sair bufando da casinha por ter deixado cair o rolo do papel higiênico no buraco central, irrecuperável!

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Depois de duas noites em Mawenzi Tarn Hut desarmamos as barracas e caminhamos por 6 horas rumo a School Hut, a 4.750 metros, nossa base antes do cume. Este abrigo possui um ambiente coletivo com um grande beliche acolchoado que acomoda oito pessoas em cima e outras oito em baixo. A ordem é almoçar e toque de recolher com silêncio completo às 16:00 horas, despertando às 23:00 horas para o ataque final. Não foi fácil dormir nessa situação, tanto pela luminosidade quanto pela ansiedade, e essa condição estava estampada nas faces levemente endurecidas de todos os colegas! A alimentação para as oito horas de subida foi uma preocupação que trouxe comigo do Brasil que, pelos relatos que li, é o trecho mais desgastante, sendo que um trekker recomendou consumo de uma barra de chocolate de hora em hora. Devo admitir que o chocolate fez mesmo diferença nos momentos de intenso cansaço na madrugada gélida, me reanimando quase que imediatamente!

Atravessar a longa e escura noite fria em altitude foi uma das experiências mais marcantes da minha vida na montanha! A interminável procissão humana formada pelas lanternas conjuntas de dezenas de montanhistas de todas as partes do mundo ziguezagueando enfileirados na trilha a subir pela encosta no mesmo ritmo era a materialização da fé que empurra essas pessoas a um destino somente compreendido por elas mesmas! Cena incrível! Consegui chegar ao Gilman’s Point, a 5.685 metros e já na borda da cratera, poucos minutos antes do nascer do sol. O dia começava a clarear e um horizonte vinhático se formava ao leste! Visão inesquecível! Alguns colegas chegaram antes de mim e outros depois, mas todos conseguiram realizar seu sonho. Pessoas choravam, se emocionavam, se abraçavam, agradeciam aos seus deuses ou simplesmente embasbacavam paralisadas diante da imensa tela celestial cada vez mais dourada! Todavia, ainda não era o cume! Seguindo pela borda por mais hora e meia se chega ao Uhuru Peak (ou Pico da Liberdade, em swahili), o verdadeiro cume do Kilimanjaro, a 5.895 metros, local de muitas comemorações, fotografias e filmagens! Apesar de não constar na lista Wikipédia das 100 maiores montanhas do mundo, não existe lugar mais alto em 5 mil km ao redor!

A descida foi prevista para começar às 09:00 horas. Como para baixo todo santo ajuda, tanto trekkers quanto guias desenvolveram o hábito de descer correndo em linha reta, surfando nos pequenos pedriscos e seixos amontoados provenientes das antigas geleiras. A diversão pode ser perigosa, pois a distância é grande e o acúmulo do impacto constante nos joelhos e pés é violento. Um colega chegou com hematomas sob ambas as unhas dos dedões dos pés que rapidamente evoluíram para purulentos e deverá perdê-las nos dias subsequentes! Pela rota Marangu regredimos para a altitude de 3.720 metros, até Horombo Hut, após 7 horas de trilha. Na prática completamos 24 horas acordados, somando 16 desgastantes horas de caminhada! Finalmente, no sexto e último dia de expedição, percorremos outras 6 horas até o portão principal, lugar de intensa confraternização e de gastar alguns dólares na lojinha de souvenir! No momento da assinatura obrigatória do livro de saída pedi para carimbar meu passaporte com o logotipo do PNK. Ao final dessa empreitada tínhamos caminhado 82 km, sendo 46 km de subida e 36 km de descida. Acrescentando os 6 km plus do dia de aclimatação tivemos um total de 88 km percorridos.

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A diferença de fuso horário na Tanzânia é de 6 horas a mais em relação à hora oficial de Brasília. Melhor teria sido se eu tivesse chegado com margem de quatro dias de antecedência, pelo menos, e descansado por outros dois dias após o retorno. Mas quem tem férias tem pressa! Hoje, conhecendo o lugar, teria aproveitado esses dias para fazer um safari enquanto meu organismo regulava o relógio biológico. A região tem alto índice de malária transmitida pelo mosquito, então mantive o corpo sempre besuntado com repelente e dormi no hotel protegido por mosquiteiro que levei. Em nenhum momento pegamos chuva, neve ou granizo, somente sol, vento e poeira. Noites lindas com céu limpo em festa, decorado por milhares de luzes adamantinas iluminando o território da Lucy, com um toque mágico da luazinha minguante na madrugada avançada.

Estar nas montanhas é o meu desejo desde que botei a primeira mochila nas costas aos 14 anos e fui de carona para a Argentina! Alguém disse que somente nos seus sonhos o Homem é verdadeiramente livre! E o que acontece quando realizamos nossos sonhos? Nos libertamos desse desejo ou nos subordinamos mais ainda a ele? Escalar o Kilimanjaro foi a realização de um sonho que me deixou liberto do meu personagem urbano durante os dias em que estive no PNK, um sentimento de liberdade ancestral que me fez sentir plenamente à vontade naquele ambiente natural como se eu fizesse parte do cenário desde tempos memoriáveis. Se, por um lado, o sonho foi aplacado, por outro despertou o desejo de repetição da aventura! Como disse uma das participantes do grupo, “será esse o mal da montanha que tanto falam?

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Deixo meus sinceros agradecimentos ao excelente guia Manoel Morgado, uma figura humana ímpar, generoso na divisão dos ensinamentos e envolvente na arte da contagem dos causos ocorridos nas montanhas. Viajar com Morgado foi uma decisão mais do que acertada e que muito contribuiu para o meu aperfeiçoamento como montanhista. Um abraço especial para os maravilhosos colegas de trekking Aurélio, Cézar, Cláudia, Domingos, Érica, Fábio, Gisella, Gisleine, Marieta, Mark, Newtinho e Sílvia que vieram do ES, MG, PR, RJ e SP, sempre de alto astral e com os quais muito aprendi pelo exemplo comportamental e muito me diverti em momentos impagáveis de puro humor. Um grande asante para a incansável equipe dos trabalhadores tanzanianos, onde cada um confirma a fama de povo alegre, sorridente e prestativo. Obrigado aos colegas do CEL Anne Peixoto e Flavio Doce de Pessoa pelo empréstimo de equipamentos pessoais e a todo o quadro social pelo incentivo na viagem.
Para mim foi uma grande honra inaugurar a nova bandeira do CEL no cume do Kilimanjaro, simbolismo associado à importância que este querido clube representa no montanhismo brasileiro! Que a tradição se mantenha por muitas décadas mais! Hakuna Matata!

 

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