Himalaia: histórias e conquistas
Por Roger Frison-Roche (e Sylvain Jouty), Extraído de “A History of Mountain Climbing”. Traduzido por Paulo Miranda
A Cordilheira do Himalaia - ou o Grande Himalaia - pode ser dividida em duas partes distintas: o Karakoram, ao longo da fronteira entre Tibete, Paquistão e Índia, e o Himalaia propriamente dito, na fronteira entre o Nepal, Tibete, Índia e Butão. Ambas possuem, orgulhosamente, os 14 picos com mais de “8.000” m do planeta, assim como centenas de outros acima dos 7.000 m. Estendendo por uns 2.500 km, o Grande Himalaia forma a fronteira sul do Tibete - país invadido pela China comunista em 1949 -, enquanto sua extremidade noroeste, o Karakoram, localiza-se no Kashmir, região controlada e disputada pelo Paquistão e pela Índia, países surgidos em 1947 com a desintegração do império colonial britânico.
Até 1939, a maior parte de toda esta região, com exceção do Tibete, era controlada pela Grã-Bretanha. Portanto, não é nenhuma surpresa que os britânicos tenham exercido o papel principal nas explorações. Enquanto o reino do Nepal permanecia fechado e proibido aos estrangeiros e o Butão abria e fechava suas portas ao seu bel prazer, os estados do Kashmir, Punjab, Garhwal e Sikkim estavam sob influência britânica até 1939, quando estoura a 2º Guerra Mundial, o que alteraria todo o mapa geopolítico do continente sub-asiático. O estado do Sikkim era a entrada para o Tibete, cuja permissão de entrada era controlada pelo Dalai Lama, que dava preferência aos britânicos.
Na cidade de Darjiling, localizava-se a sede do Comitê do Himalaia, que liberava autorizações para as expedições, chegando a “distribuir” os cumes principais entre alguns países. Até 1950, nenhuma expedição não britânica conseguiu autorização para entrar no Tibete, única via de acesso à região do Everest, tendo que conformar-se com picos secundários, como os do Karakoram.
Porém, em 1950, ocorre uma mudança radical nesta região: o Tibete é invadido pelos chineses, fechando o acesso à este país a todos os estrangeiros. Simultaneamente, uma revolução explode no Nepal, que abriu suas fronteiras a montanhistas e exploradores. De repente, abria-se as portas de uma terra com 800 km de extensão, extremamente montanhosa e onde tudo estava para ser conhecido. França, Alemanha, Áustria, EUA, Japão, Suíça, Argentina e Grã-Bretanha se lançam numa corrida louca e frenética atrás de nada menos que 8 dos 14 “8.000”, além de centenas de outros menores até então zelosamente guardados por este minúsculo país.
Em 10 anos, a conquista dos “Gigantes do Himalaia” e “Karakoram” estava praticamente completa. E, assim como a conquista dos Alpes estimulou o treinamento e formação de guias entre a população local, a conquista do Himalaia também favoreceu o recrutamento de membros da população dos vales superiores, bem adaptados às altas altitudes: os Sherpas. De origem tibetana, estabeleceram-se nas encostas sul da Cordilheira do Himalaia, principalmente em Nanche Bazar, no vale do Khumbu. Suas qualidades físicas e humanas, assim como seus profundos conhecimentos das regiões mais altas da Terra e ótima adaptação às atividades em altas altitudes, tornaram-nos, naturalmente, membros das grandes expedições.
Da 1º expedição ao Everest em 1921 até a chegada de Tenzing Norgay no teto do mundo em 1953, existe uma grande semelhança entre a evolução dos Sherpas e dos montagnards de Chamonix. Assim como o caçador de cristais Jacques Balmat conquistou o Mont Blanc, o simples Tenzing Norgay teve o Everest sob seus pés. É indiscutível que a presença dos Sherpas nos times de conquista foi um elemento-chave nas conquistas no Himalaia, durante as quais sobressaíram nomes como Pa Norbu, Gyalzen, Ang Dawa, Nyima, Pasang, Pemba e, é claro, Tenzing Norgay, que iniciou uma dinastia de grandes montanhistas de altas altitudes. Porem, a divisão das terras do sul em dois países baseados em duas religiões basicamente opostas, e conflitantes no sentido bélico (o islâmico Paquistão e a Índia hinduísta), fechou o Karakoram ao serviço dos Sherpas budistas. Assim, expedições à extremidade oeste do Himalaia tiveram que recrutar não só carregadores, mas também guias de alta montanha, entre a população local, isto é, os Hunzas, que em alguns casos, se revelaram excelentes montanhistas.
As Primeiras Expedições
Expedições ao Himalaia e Karakoram iniciaram-se por volta de 1818 através de emissários do governo colonial britânico com a função de realizar estudos topográficos. Em 1855, os irmãos Schlagintweit fizeram uma tentativa de escalar o Kamet (7.755 m) no Garhwal. Em 1848, Hooker explorou o 3º “8.000” - Kangchenjunga - e Freshfield realizou, em 1889, a primeira circunavegação deste maciço.
A 1º expedição verdadeira e bem estruturada aconteceu em 1892 no Karakoram, chefiada por Sir Martin Conway. Altamente bem organizada, contava com a presença não só de oficiais britânicos servindo no exército colonial na Índia, mas também de profissionais dos Alpes como Matthias Zurbriggen (Este chegaria sozinho ao cume do Aconcágua em 14/01/1898.
O próximo importante pico do mundo a ser conquistado em solitário seria o Nanga Parbat - 8.125 m - pelo austríaco Hermann Buhl em 1953). Nesta expedição, Conway descobre o Glaciar Baltoro. No final deste, escala uma montanha de 6.900 metros - Pioneer Peak - de onde contempla alguns “8.000” escondidos, entre eles o K2 (8.611 m). Mas o que o impressiona é uma torre coberta de neve - semelhante ao Matterhorn e aparentemente impugnável para as técnicas da época - e que seria palco de uma importante evolução do montanhismo himalaiano: Mustagh Tower (7.273 m) Já nesta época, o Himalaia já era palco de aventuras em estilo alpino (quando carrega-se só o essencial, sem time de apoio, acampamentos preestabelecidos, cordas fixas ou oxigênio suplementar; escalando o pico em um único e direto estirão, dando segurança só quando absolutamente necessário, quase não utilizando proteção e confiando integralmente na própria habilidade e confiança) como o corajoso ataque do inglês Albert Mummery ao Nanga Parbat, em 1895, quando atinge os 7.000 metros da gigantesca face Diamir. Alguns dias depois, desaparece junto com dois carregadores enquanto explorava a face Rakhiot.
A morte de um dos grandes montanhistas da época reforçou a impressão de que o Himalaia não poderia ser conquistado sem uma longa preparação e recursos abundantes. A tática maciça, tipo militar que evoluiu nesta cordilheira foi uma reação natural à escala colossal de seus picos acrescidos aos problemas de isolamento e altitude, que colocava qualquer aproximação num plano completamente diferente em relação aos Alpes.
