Fator Frio: primeira ascensão invernal do Monte Denali/Mckinley
Por Jim Vermeulen, CLIMBING Magazine, n.º 172, Seção Flashback. Traduzido por Paulo Miranda
Raramente uma escalada histórica é famosa por sua descida. Mas a primeira ascensão invernal do pico mais alto da América do Norte, em 1967, é mais conhecida pelo modo como um grupo de três homens fez o caminho para baixo. A escalada dos 6.193 metros do Denali (nome indígena original do Monte Mckinley) exigiu um preço implacável.
No final de janeiro daquele ano, poucos dias depois da chegada, Jacques Batkin caiu numa greta quando subia a rota do contraforte oeste. Ao ser retirado, já estava morto. O time remanescente - Art Davidson, Dave Johnston, Ray “Pirate” Genet, Shiro Nishimae, George Wichman, John Edwards e Gregg Blomberg - enfrentou fortes ventos e frio ainda na parte baixa da montanha. Finalmente, foi estabelecido um acampamento avançado à 5.242 m, no dia 23 de fevereiro.
No último dia do mês, Johnston, Davidson e Genet partiram para o topo, alcançando o Passe Denali, à 5.547 metros, com um tempo limpo e sem vento. Mesmo tarde, sabiam que outra oportunidade seria impossível e continuaram. A crista que seguiam na escuridão acabou bruscamente numa rasa depressão, com uma estaca de alumínio fincada na neve. Tinham conseguido.
Logo depois, tomaram o caminho de volta e já em Passe Denali, pegaram seus equipamentos de bivaque, entraram nos sacos de dormir e agarraram-se na cobertura de pára-quedas que servia de tenda. Planejavam alcançar o acampamento avançado pela manhã, mas estavam enganados.
1º de março: São acordados por um uivante vendaval que levou o pára-quedas pelos ares, desaparecendo na noite alasquiana. Johnston rastejou-se para fora do saco de dormir e começou a cavar um buraco no gelo, enquanto os outros encolhiam-se, amontoados, com as mãos congeladas e inúteis. Rastejaram para dentro da apertada e limitada caverna, a uma temperatura externa estimada em -100ºC.
2 de março: No buraco, mal tinham espaço para moverem-se. Fortes e periódicas pancadas de vento sacudiam cristais de gelo do teto da caverna. Restava pouco combustível para derreter gelo e terem água.
3 de março: A ventania era incessante. Johnston cozinhou alguma coisa com o resto de combustível que tinham. O suprimento de comida que restava era menor que a quantidade diária para uma pessoa.
4 de março: A falta de comida estava matando-os. Então, Johnston lembrou de um galão de combustível que ele tinha escondido perto do Passo Denali, três anos atrás, a uns 60 m da caverna onde estavam. Alcançá-lo seria um risco, mas Genet arrastou-se para fora. Passaram-se 15 minutos e uma lufada de neve invadiu a caverna, seguida por um garrafão de plástico e Genet. Com o gás, pelo menos teriam água.
5 de março: Enquanto isso, os outros membros da expedição iniciavam a descida para conseguir resgate. O trio já não tinha mais comida e seus sacos de dormir estavam congelando. “Dave” percebeu que os ventos pararam e podiam descer, mas a noite os impediu.
6 de março: Os três emergiram numa sinistra calmaria, com uma cerrada neblina que impedia a visibilidade. Genet já tinha inspecionado um esconderijo anteriormente mas, um desesperado Davidson atacou-o violentamente e, lá no fundo, sob camadas de roupas e equipamentos congelados, encontrou batatas secas, passas e uma lata de presunto.
7 de março: A manhã chegou limpa e clara. Preparar para partir significava calçar as botas: gritos de dor enchiam a caverna. Já do lado de fora, os três cambaleavam sobre pernas trêmulas, tendo que enfrentar uma encosta de gelo de 40º de declive. Vagarosamente, alcançaram a caverna de gelo do acampamento avançado, deserto, porém abastecido de comida. Devoraram tudo antes de continuar a descida para as barracas à 4.389 metros, igualmente desertas e abastecidas.
8 de março: Num sol brilhante, o piloto Don Sheldon localizou o combatente trio, fez um rasante largando um rádio pelo qual foram avisados da chegada de um helicóptero de resgate, que os alcançou fazendo um arriscado pouso num redemoinho de neve. Os três entraram, a porta se fechou para o mundo de frio e ventos horríveis continuavam, enquanto levantavam vôo. “Estão todos bem?”, perguntou o piloto. “Certamente estamos OK”, murmurou Genet. Davidson, olhava fixamente para a montanha e imaginava o que pensariam os futuros alpinistas quando encontrassem seus equipamentos abandonados e congelados no gelo.
