ARTIGOS ::

Bom senso, insistência e quebra de promessas

Por Claudney Neves

 

No ano passado (2008), devido a acidentes que ocorreram com mais freqüência que o normal, muito se falou sobre segurança em montanha. A FEMERJ organizou um seminário e chegaram a algumas conclusões. Coisas simples que podem salvar vidas, como backup com prussik e prender a solteira no mosquetão do aparelho de descida durante o rapel, fazer um nó em cada ponta da corda e outros assuntos também importantes, como qual nó usar para emendar duas cordas, vale mesmo à pena emendar cordas? E rapel expresso, é seguro?

Na minha opinião, excluindo assuntos mais técnicos, muitos dos acidentes e alguns aborrecimentos poderiam ser evitados apenas com bom senso. A insistência pode ser a diferença entre a realização de um projeto e um dia infernal – ou noite – e às vezes é necessário quebrar promessas.

Ontem, sábado (14 Mar), participei de um grupo com três cordadas. Todas escalariam a mesma via, DGM, no Grajaú (5º VI). A primeira cordada, Luchesi e Guilherme avisou que não terminaria a via, pois estavam com compromissos marcados e desceriam depois das primeiras enfiadas. Assim fizeram, subiram, duas paradas depois rapelaram. Nesse meio tempo João começou a guiar a primeira enfiada, eu fazia sua segurança. Parou mais ou menos entre as duas paradas da primeira cordada. Minha vez, subi e o encontrei, assumi a próxima enfiada. Nisso, o guia da terceira cordada vinha atrás. Fiz um trecho curto e parei antes do crux, queria que João ficasse mais perto se eu caísse. Ele chegou, continuei, costurei o grampo no lance, tentei e caí :( Estudei as agarras e batendo em um reglete na altura do meu pescoço falei: “Se colocar o pé aqui tô salvo”. Olhei pro João, soltei um “Se liga, heim”, fiz uns malabarismos e passei. Bernardo subia ainda a primeira enfiada. Continuei meu caminho e parei 13 costuras depois. João começou a subir, e mesmo depois de várias tentativas não conseguiu passar do crux, exausto e com uma sapatilha estupidamente apertada que acabara de comprar, gritou que queria desistir... Gritei de volta: “Vem aqui, desiste daqui!”, a corda retesou mais algumas vezes, ele insistiu e ainda não conseguiu. “Sobe na corda”.

Entrei nessa via há cerca de um ano antes, ou mais, talvez. Também com João e um amigo dele, Rodrigo. Chegamos até o lance antes do crux. Graças a uma mistura de ninguém querer guiar e esposas ligando, exigindo a presença masculina em benditos eventos sociais, descemos, pra mim foi frustrante.

João fez de conta que o lance era um artificial e chegou onde eu estava. Continuou com a conversa de desistir, ao mesmo tempo começou a cair uma chuvinha fina. “Descansa aí, tira a sapatilha e come alguma coisa. Já desci dessa via uma vez, hoje queria chegar ao cume!”. Os pingos diminuíram, sumiram, voltaram novamente, continuei a guiar. Cada vez que João colocava os pés na sapatilha era acompanhado de um gemido. Cinco enfiadas depois da parada onde ele queria desistir, chegamos ao cume :) Esse foi um caso onde a insistência fez a diferença. Completamos o projeto.

O amigo do Bernardo, que guiava a via, não conseguiu passar do crux, protagonizou algumas quedas e desistiu. Bernardo não quis tentar. Rapelaram.

Quando resolvi continuar, mesmo com a garoa caindo, olhei pro céu e torci para parar, parecia ser apenas uma nuvem, e era. Poderíamos rapelar de qualquer ponto da via e eu estava seguro do que fazia. Só desceria se João REALMENTE não quisesse continuar.

Na única vez que fiz a via Leste do Pico Maior, em Salinas, combinei com meu parceiro de cordada que desceríamos às 14 h de onde estivéssemos na parede. A via, apesar de não ser tão difícil (5º grau somente em alguns pontos), possui 700 m e é comprometedora. Não cumprimos a promessa, quando lembrei de olhar o relógio já passava das 15 h, estávamos a duas enfiadas do cume, vencemos dois artificiais em uma hora e descemos à noite, mas concluímos o projeto. O que seria melhor, rapelar quase 700 m pela Leste, uma via E3, ou terminar a escalada e descer pela Sylvio Mendes, uma via E1 de 550? Aqui o bom senso se uniu à vontade de chegar ao cume.

Quando conheci as escaladas na Colômbia, por duas vezes me vi na chuva, no meio de vias totalmente em móvel, sem possibilidade de rapelar, a não ser com abandono de material. A parede lá possui cerca de 150 m, estávamos com dois jogos de móveis, problema relativamente fácil de resolver. Há momentos em que você precisa decidir, conhecimento e experiência contam muito. Nas duas ocasiões Amanda e eu saímos da parede escalando, com cuidado e avaliando, entre algumas possibilidades, se aquela era a melhor decisão, fugimos dos 9º C que faria à noite.

Hoje, no dia seguinte à escalada na DGM, fui conhecer o Parque da Chacrinha com meu camarada Luchesi. Estacionamos o carro por volta das 8:30 h da manhã e já avistamos gente na Fissura São João, a via que faríamos. Essa via começa com um pequeno trecho de 3º grau, apenas dois grampos, segue por uma horizontal que mistura trilha e passadas de 2º grau, até chegar em uma gruta, de onde sai outra horizontal até chegar à fenda propriamente dita. Quando nos aproximamos da gruta, estavam dois escaladores, o primeiro já preso à uma corda que vinha de cima, pensamos que estariam em uma cordada de três. Depois de olhar mais atentamente, tentamos decifrar o que acontecia ali, imaginamos uma cordada de quatro... Aguardamos, começou a chover, aquele tipo de chuvinha chata que só serve pra molhar, lá pelas 10:30 h, com o último participante ainda no final da horizontal antes da fenda, desistimos e descemos. A via tem 60 m à partir da gruta, se a – ou as – cordadas acima estavam demorando aquilo tudo para vencer uma via de 4º grau, não poderia sair boa coisa se insistíssemos em entrar no meio da festa. Da base avistamos um quinto elemento, ainda guiando a enfiada final, aos berros, reclamando que estavam prendendo a corda, enquanto o segundo participante subia ao mesmo tempo e deixava mais três cabeças juntas na parada. Acho que aqui nem é preciso falar em bom senso. A fenda vai continuar lá por bastante tempo, voltaremos em um dia de sol e sem trânsito.

Deixo aqui, pra finalizar, um texto do Silverio Nery, Presidente da FEMESP por alguns anos:

"...A maioria dos acidentes em escalada ocorre devido a erros humanos. Os fatores que definem o acerto ou o erro na maioria dos acidentes são o nível de conhecimento, a experiência e a competência do escalador em realizar o melhor julgamento da situação específica em que se encontra. Saber avaliar uma situação de risco e utilizar os melhores meios disponíveis naquele momento para sair de uma roubada é uma habilidade/competência indispensável que todos nós devemos buscar constantemente."

 

VOLTAR